Propicie bons momentos juntos

25

ago 2018

Por:Dra. Dayse D'Ávila
Pais e filhos

Estamos chegando quase na metade do livro, pois hoje a 4ª medida: “Propicie bons momentos juntos” foi liberada. Confira abaixo e uma excelente leitura!




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Infelizmente, minha mãe morreu há 8 anos. Ela tinha apenas 60 anos e
esses foram os dias que Deus reservou para ela. Por seguir a maternidade
sem ela, eu forço minha memória para me direcionar para o que deu certo e
evitar os caminhos nebulosos que não me fizeram bem evitando repetir os
mesmos erros. Acho que ela teve bem mais acertos do que erros. Puxo minha
memória para minha tenra idade e o que me mais me recordo dela foram os
momentos que estávamos juntas. Lembro-me dela costurando para mim na
mesa da cozinha e eu sentada no chão, com uma maquininha da Estrela
fazendo roupinha para Barbie. Ela ia cortando e me mostrando como fechava o
cavo da calça, como pregava e cortava uma manga da blusa… enquanto fazia
costuras de verdade de vestidos para mim. Eu me lembro dela fritando
batatinha para gente e também chegando em casa com um saco grande de
tomate, minha comida preferida até hoje. Lembro da gente na areia da praia e
ela colocando blusa para eu e meu irmão não nos queimarmos muito numa
época que eu não conhecia filtro solar. E também da panela de cachorro quente
e a garrafa térmica de suco que ela levava dentro do carro quando a gente
viajava para o sítio dos meus tios por um caminho que não tinha paradas na
estrada. Eu me lembro como ela ajudava as pessoas e como tinha disposição
em dividir o que tinha. Que se envolvia com a Pastoral da Saúde e com visitas a
pessoas acamadas.



Sabe o que concluo disso e levo muito a sério? Eu não me lembro de coisas
materiais. Eu me lembro só do cuidado que ela teve comigo. Dos tempos bons
que passamos juntas fazendo o que nós duas gostávamos. E sempre eram
coisas simples. Se eu fiquei em algum hotel bom ou chique (e provavelmente
não), eu sinceramente não me recordo. Eu só me lembro dela na areia me
vestindo uma blusa. Foi só isso que ficou. Eu sequer me lembro de qual praia
era. Eu não me recordo das aulas que fiz, eu só me lembro ali sentada no chão
aprendendo a costurar com ela. Da paciência que ela tinha comigo a
interrompendo o tempo todo pedindo ajuda com o cavo da calça da Barbie.



Eu quero falar claramente aqui sobre enxergar e separar o que é
importante do que não é importante. Do que traz felicidade do que não traz
felicidade. Do que faz com que seu filho seja forte e resiliente, do que
enfraquece e o apodrece por dentro. Do que constrói valores e do que desfoca
o olhar diante da vida. Eu vejo claramente hoje como nós pais nos concentramos demais nas coisas materiais que queremos dar aos nossos filhos.
É uma demanda sem fim de um dar que virou, erroneamente, sinônimo de bem
estar. Meus avós provavelmente não tiveram outra preocupação além de
alimentar e estudar os filhos. Meus pais já foram pais intermediários, que
tiveram, além dessas duas preocupações, um pouco mais de vontade de nos
oferecer certas coisas, como roupas e brinquedos melhores. Mas hoje, nos
tornamos pais que usam a régua do ganho material para medir demais o nosso
desempenho como genitores. Veja nosso ponto atual: se você não pode dar um
tênis à altura das amizades do nosso filho, então não fomos assim tão bons e
nos sentimos mal.



Por algum motivo, uma criança tem que ir à Disney bem cedo, numa época
que tudo que ela faz é achar a viagem de avião muito cansativa. Ipad, Iphone,
tênis de marca, mochila tal, roupa para a festa, dinheiro para o shopping.
Matrícula na aula disso, na aula daquilo, na atividade tal. Conjugamos o verbo
dar em nossa vida real e em nosso mundo imaginário, onde cada vez mais nos
vemos podendo entregar mais. E a vida se torna uma eterna frustração do
dinheiro que nunca é suficiente para você proporcionar o que eles ”precisam”.
Não há nada de errado em fazer aulas extras. Meus filhos também fazem. Só
não está certo se ficar sendo um peso financeiro além do que a vida já nos
exige. Está errado o sacrifício exagerado. É injusto com os pais. Em uma família,
todos precisam estar bem. Os pais não devem se sacrificar pelos filhos. Os pais
devem amá-los, educa-los e garantir que tenham um ambiente seguro para se
desenvolverem.



Quando vamos fazer uma viagem, fazemos as malas e anotamos o que cada
um precisa. Essa é uma palavra que usamos muito aqui – ”precisa”. Pergunto o
que cada um precisa para viajar e vejo como eles incorporaram bem essa
palavra. Eles não precisam de ”roupa nova” ou coisas novas só porque vão
viajar. Eles falam claramente: ”um chinelo, o meu está velho”; ”estou sem
biquíni”; ”a minha mala está com o zíper soltando”… e assim vai por diante. São
específicos, eles sabem do que realmente é necessário. E vamos ao shopping.
Eu gosto de não dar tudo, mesmo podendo comprar. Eu sempre digo que
preciso comprar coisas para cinco pessoas, pois todos são importantes na
família. E sempre pergunto para um deles algo que acho que pode ser deixado,
por exemplo: ”acha que dá para usar seu chinelo dessa vez? Eu estou querendo
comprar uma bermuda para seu pai”. Graças a Deus, posso comprar tanto o
chinelo quanto a bermuda, mas eles são crianças. Eles precisam entender que
não precisam viajar com um chinelo novo e que também o pai é importante.
Não podemos deslocar a felicidade real do passeio para o irreal que é a compra.
E, especialmente, quero que aprendam que eles não têm direito a um chinelo
novo. Eles simplesmente não trabalham, então, precisam ser gratos pelo que
recebem. Não por direito, mas porque eu quero dar quando eu quiser. Temos
direito ao fruto do nosso trabalho, do nosso esforço. Aqui em casa não tem pai
e mãe se sacrificando até a morte por eles. Tem uma família que segue junto,
lado a lado. Eu fico muito feliz quando meus sogros estão indo para o exterior e
perguntam o que querem de presente. Não é raro, não é raro mesmo eles
pensarem um pouco e falarem que não estão precisando de nada.



Quando o amor se manifesta em presentes e em presentes caros, abrimos
um buraco negro que engole a todos. Mais gastamos, menos temos, mais
irritados ficamos, mais descontamos neles, mais rebeldes se tornam e mais
presentes se tornam necessários para contornar a situação, e mais frustrados
nos tornamos porque não ganhamos o dinheiro suficiente e nem temos o nosso
esforço reconhecido. Veja a loucura humana. Isso acontece muito. Facilmente
criamos e caímos em nossas próprias armadilhas. Eu vejo pais excelentes que
invalidam tudo que fazem pela tristeza excessiva em não poder manter os filhos
no mesmo padrão que certos colegas. Eu vejo pais excelentes que são
excomulgados por familiares porque não alcançaram bom desempenho
financeiro. Quando um resolve trabalhar menos, é pisoteado porque o filho
não fará aula de Inglês. A que ponto chegamos? Será você mesmo o limitante
de todo futuro financeiro de seu filho? Não creio. As maiores fortunas saíram
do nada. Pode pesquisar. Não foram herdadas. Seu filho pode ir muito além de
você. Na verdade, ele irá. Desde que a gente não atrapalhe.



Sabe qual é nosso programa melhor aqui em casa? Nós cinco deitados na
minha cama, com uma pipoca de panela que eu fiz na manteiga, assistindo um
“filmaço” que meu marido escolheu no Netflix, geralmente na versão gratuita.
Somos felizes aqui muito mais do que em qualquer parte do mundo e eles não
trocam esse momento por nada. Tenho certeza que, lá na frente, eles se
lembrarão do tanto que nos divertimos nesse quarto aqui, com uma cama, um
balde de pipoca e uma TV. Muito mais do que dos lugares que visitamos.



Por algum motivo, todos nós não valorizamos as coisas importantes de fato
– porque elas são de graça e já as temos. A capacidade de amar, de perdoar, de
construir uma casa feliz, a saúde, o sorriso, a alegria, o nosso corpo, a chuva que
cai do céu. De vivermos bons momentos com uma panela de pipoca. Só isso.
Mas se não for caro, não é bom em nosso imaginário. E você não precisa
oferecer muito mais do que isso se projetar que seu filho tem a vida inteira para
realizar os outros sonhos dele e que sua condição não é o limitante da vida
inteira dele. Grandes riquezas foram acumuladas por pessoas que passaram fome na infância. Grave isso: você não é o limitante do seu filho. Separe de você
o peso de ser o responsável por até onde ele chegará. Foque em dar a estrutura
emocional correta para ele ir onde quiser. Uma pessoa desestruturada não se
mantém de pé em lugar nenhum, por mais longe que você a tenha levado.



O que for importante, acontecerá se ele buscar. Eu conheci a Disney há uns
dois anos atrás. Não me tornei mais feliz por isso ter me acontecido. Nem era
mais infeliz no tempo que não tinha ido. Simplesmente, separo as coisas que
merecem ocupar lugar diferente em nossa vida. Tenho várias gavetas em meu
coração. Uma para “passeios”, outra para “roupas, sapatos e acessórios”, uma
para “carros”… e uma prateleira para “felicidade”. Bons momentos podem
estar em todas elas, mas a felicidade não se encontra no meio disso. O que vem
de fora, eu abro uma gaveta e guardo, pois são apenas bons momentos. Às
vezes, me lembro, às vezes me esqueço daquilo para sempre. A felicidade é algo
que fica na prateleira e nunca é esquecido. É o que está aos olhos o tempo todo.
É a minha saúde, é a família que estou construindo, a maturidade a cada dia. É o
intangível.



Uma grande fonte de estresse para nós e para nossos filhos, causa evidente
do declínio da taxa de felicidade no mundo, é que fomos mudamos as metas de
intrínsecas para extrínsecas ao longo das gerações. Cada vez mais as metas e
projeções que vamos tendo de uma vida ideal está baseada em coisas externas,
aquelas que devem ficar na gaveta. Como ter uma casa boa, um carro melhor,
bons móveis, roupas luxuosas, viagens bacanas e por aí se vão os cabelos e a
paz de espírito. Ao contrário, fomos nos desligamos daquilo que poderíamos
ter como metas intrínsecas de vida para estarem à mostra na prateleira. Como
ser um bom pai, uma pessoa íntegra, ter valores, pertencer a uma comunidade,
participar de um movimento em alguma Igreja, ONG ou em outro lugar. Sermos
pessoas boas, honestas e cooperativas. Ter uma boa vizinhança e sermos bons
vizinhos. Termos bons amigos e nos reunirmos com eles para nos divertir. O
estresse é o erro do alvo que escolhemos. Mire para dentro e não para fora. O
externo vai ocorrer como conseqüência natural do interno.



Dê aos seus filhos um pouco menos que sua condição financeira permite.
Eles não precisam de nada para serem felizes além da clara percepção do seu
cuidado. Pode faltar qualquer coisa em suas vidas, exceto o amor. E
perceberem através de palavras, beijos, sua presença e atitudes que você
verdadeiramente os ama. Nenhuma viagem, roupa, calçado ou eletrônico
ocupa o lugar de um coração vazio. E nenhum coração cheio tem mágoa de uma
viagem que não fez ou presente que não ganhou.



ATIVIDADE: qual é o seu momento realmente bom com seu filho? E
individualmente, se tem mais de um? O que você está deixando impregnado na
memória deles e que os aproxima no momento? Nessa semana faça um
compromisso de zelar por um momento muito bom, que não envolva gastos
importantes, que ocorra semanalmente com eles, pelo menos. Não vale ser
nada que represente um valor de dinheiro representativo para você. Tem que
ser algo que comprove para você e para eles que vocês não precisam coisas
caras e materiais para serem felizes juntos. Pode ser a noite do jantar da família,
a noite de jogos ou da TV no quarto. Pode ser a noite do cinema ou o dia do
passeio de bicicleta. Sem amigos, sem parentes, sem fatores externos. Um
momento de vocês. Se ainda não faz parte de sua família, é hora de organizar.
Que seja bom para todos, que haja a comida que cada um preze. Não delegue,
não espere ser convidada. Promova o evento e esteja ali de corpo e alma.
Porque amar é um verbo que precisamos colocar em prática mostrando o
quanto é bom estarmos juntos.

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