Pare com o ferro de dentista

15

Sep 2018

Por:Dra. Dayse D'Ávila
Pais e filhos

Suas chamadas de atenção são excessivas? Você fica lembrando o seu filho do erro que ele cometeu a cada instante? Este comportamento pode minar o desenvolvimento saudável e natural da criança. E este é o assunto da 6ª medida. Boa leitura!




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Quando eu vou ao dentista, eu sempre marco o primeiro horário para
não acontecer de eu ter que ficar sentada ali na recepção ouvindo o
barulho do motorzinho com aquele ferrinho de dentista, indo e vindo no dente.
Meu estômago já começa a enjoar só com aquele barulho na recepção. Não
tem tortura maior para mim. Aquilo parece que não tem fim.



Eu não tenho o menor problema com autoridade aqui em casa. Meus filhos
me obedecem e respeitam sem dificuldade e não preciso mandar mais que uma
vez. Sou muito amorosa, beijo, abraço, me enrosco neles… mas na hora que falo
sério, não há menor dúvida que não há opção. Como consegui? Eu não uso o
ferrinho de dentista. Eu não “encho o saco” dos meus filhos para nada. Esse é o
problema de muitos pais, e talvez, seja o seu e esse texto talvez possa ajudar. Eu
me atenho ao que é importante para não perder a autoridade e não gerar a
liberdade de um bate-boca desnecessário. Sabe aquele estraga-prazer de
criança que o adulto fica? Vou dar exemplo:


– Calce o chinelo que o chão está frio!


– Pare para tomar água!


– Vem vestir uma blusa de frio!


– Recolha os brinquedos (no meio da brincadeira) que a sala está uma
bagunça!


– Pare de gritar! Brinque falando baixo!


Sem falar na briga pelo brócolis, pela meia no chão, pelo caderno
amassado… enfim, aquelas coisas que não fazem a menor diferença na vida e
educação, além de atrapalhar a brincadeira da criança. O adulto tem
necessidade de ficar dando ordenzinhas o tempo todo, desnecessárias e que a
criança não vai cumprir. Ela não vai ficar de chinelo na hora que está brincando.
Ela não vai parar de correr. Ela não vai brincar sem gritar. Se ela tive sede, ela vai
tomar água. Ela vai comer se tiver fome. Então, pare com o motorzinho de
dentista, aquela coisa que enche a paciência e não tem fim, e pegue só o
boticão na hora que precisar.



Os meninos viram a casa literalmente de perna para o ar para brincar. E
correm, gritam e se divertem. Na hora que apareço na sala e falo: ajuntem os
brinquedos e vamos dormir, significa que o dia acabou. E pronto. É simples. Eu
não fico explicando que é importante dormir, que se cresce durante a noite, ou
que eu tenho que levantar cedo no dia seguinte, que faz bem para saúde ou que
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preciso ganhar dinheiro para pagar o colégio deles. Não tem ferro de dentista
comigo. Tem o horário de parar e essa hora chegou. Evito combates. Só entro na
hora do golpe final. Definitivamente, sua função como pai não é lutar com a
criança. É só dar o golpe mortal e encerrar. E deixar que sejam felizes no restante
do tempo.



Dar o momento de ‘‘respiro’’ e um momento da autoridade nas devidas
proporções é algo essencial para o sucesso do seu filho ao longo da vida. As
crianças não podem ser excessivamente obedientes, afinal, não queremos
pessoas submissas às injustiças ou sem opinião. Se você disciplina demais o seu
filho ou se tem essa postura de ficar corrigindo o tempo todo, os interesses e
opiniões da criança vão sendo minados em prol de um desejo de filhos que
simplesmente não dão trabalho algum – claro, um filho que obedece o tempo
todo é muito mais fácil para os pais. Mas será um adulto com muita dificuldade
em expor e impor suas opiniões em um mundo onde cada um tem que
conquistar seu lugar ao sol. Não estamos criando robôs que alteramos dia a dia
a programação. Estamos apenas regando e adubando um ser em formação,
dando a ele condições ideais para florescer com todos os talentos,
características e visão do mundo que são exclusivas dele. Como sempre, a
sabedoria está no equilíbrio.



E não pode ter ferrinho de dentista na resolução de problemas mais
importantes também. Assistindo a série The Crown, no Netflix, vi uma cena
muito interessante quando a recém empossada Rainha Elizabeth recebe a
primeira visita oficial do então Primeiro Ministro Winston Churchill em seu
Palácio. Apesar de ser “a Sua Majestade”, ela foi pega de surpresa com a morte
inesperada de seu pai, tendo assumido o trono muitos anos antes do que
esperava e estando ainda imatura e despreparada para o cargo. Bem, no filme,
Churchill entra na sala da Rainha e ela o convida a assentar-se para a primeira
reunião deles. O experiente e idoso Primeiro Ministro dá uma breve resposta
muito interessante à Sua Alteza. Diz que, em toda sua carreira política, o que
aprendeu de fato é que não existe nenhum problema, por mais importante que
seja, que não possa ser resolvido dentro de vinte minutos. Portanto, jamais se
sentaria diante da Rainha pois nunca tomaria além desse tempo. Esse ano,
tivemos nosso primeiro problema escolar importante com nossa filha, por algo
realmente inesperado para nós: falta de disciplina em sala de aula. Nunca havia
passado por isso e escutei estatelada as reclamações da professora que me
apresentava à uma filha que eu desconhecia. O fato é que saí dali
desconcertada e ao informar para o meu marido os fatos, a coisa ganhou
enorme proporção em termos terapêuticos. Em cerca de quinze minutos de conversa entre eu e meu marido, já estávamos até matriculando-a em outro
colégio como punição. Mas decidi agir com mais bom senso. Havíamos
planejado uma viagem para o mesmo dia e resolvi não tocar no assunto para
não estragar o clima. A chamei em um canto e falei brevemente que estava
decepcionada com ela, mas que todos nós teriam uma ótima viagem. E que,
quando retornássemos, teríamos uma única conversa. Disse claramente que
ela não seria torturada eternamente por uma conduta inadequada. E foi o que
fizemos.



Ao retornamos de uma excelente viagem, nos sentamos para conversar.
Fui bem clara quanto às regras. Meu marido falaria primeiro e, depois, eu, para
deixá-la a par do que foi falado na escola. Ao fim, ela se justificaria. Cada um
falaria mais uma vez, e dados por satisfeitos, encerraríamos o assunto com as
decisões tomadas em conjunto. Não gastamos mais do que vinte minutos.
Fomos firmes e ela pode se justificar. Reforçamos os combinados que saíram
dali decididos entre nós e qual seria o custo caso não fossem cumpridas – a
inevitável mudança de colégio. Mas dei a liberdade de decidir e assumir qual
tipo de aluna ela seria, acompanhando um estilo da escola que ela escolhesse
seguir. Vai ser da bagunça? Então vamos para um colégio fácil. Quer ficar num
colégio bom? Tem que ser dedicada e com um nível de disciplina compatível.
Pronto. Ao fim de muitas lágrimas, recebeu abraço, beijo e recebimento de
minha total confiança novamente. Não vou tocar nesse assunto outra vez a
menos que haja uma reincidência. Ou seja, sabe aquela história de falar na hora
que está comprando um tênis que ele não merece porque perdeu nota na
prova? Não torture. Resolva com brevidade, façam acordos e deposite
confiança. E esqueça o assunto.



ATIVIDADE: isso é um grande esforço diário. Parece simples, mas refreie sua
boca essa semana e só use para chamar atenção se algo for realmente
importante em sua casa. Dê menos ordem, menos direção, atrapalhe menos a
alegria deles. Quando der uma ordem, seja direto e dê menos explicação.
Simplifique assim. Entre somente nas batalhas estritamente necessárias à sua
função como educador sabendo que é para ganhar. Para não perder
autoridade, faça vistas grossas às coisas menos importantes. Deixe que
briguem entre si e resolvam como bem entenderem o problema – não seja juiz
o tempo todo. São crianças, com gostos, personalidades e variação de humor.
Não são robôs aprendendo a perfeição. Releve o que puder. E seja firme no que
realmente importa.

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