Guarde os seus sonhos para você

22

Jul 2018

Por:Dra. Dayse D'Ávila
Pais e filhos

Estamos cada vez mais próximos do lançamento do meu novo livro: 10 Medidas para Ajudar seu Filho (e Revolucionar o Relacionamento entre Vocês). Desta vez deixo para vocês a 2ª medida do livro na íntegra. Recebi muitos comentários positivos sobre a 1ª medida, espero que gostem ainda mais dessa!




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Eu não acredito em reencarnação porque creio na Bíblia, onde está escrito que o homem só tem direito de viver uma vez e, então, findados seus dias, prestará contas do que fez com eles. Mas, enfim, esse não é o ponto aqui e se você pensa diferente, isso não irá nos atrapalhar. O foco é: cada um tem somente uma vida para viver. E é tremendamente injusto querermos viver a nossa vida e a do outro. Eu penso muito nisso. Tive o direito de escolher minhas roupas, minhas atividades extra-curriculares, minha profissão, meu trabalho, meu marido e outras tantas coisas ao longo da minha existência. E estou comprometida em dar a mesma liberdade para os meus filhos.



Na verdade, eu penso muito no que quero realmente dar para eles. Mais do que isso, no que almejo deixar para meus filhos. Por que me preocupo em educá-los? O que quero que floresça neles? Eu sempre pensei e me decidi bem cedo quanto a isso: eu quero deixar um legado de bem estar, como diz no livro Crianças Dinamarquesas. Eu quero que sejam equilibrados, serenos e tenham paz. Com esses atributos, eu sei que eles poderão chegar onde quiserem. Essa é a minha verdade para eles. Eu não me preocupo em deixar bens, apartamento ou carro. Se puder, será ótimo. Se não, não terei falhado. Não me sinto com essa obrigação e essa carga não me pertence. Mas eu terei sido ineficaz se eles não forem seguros, felizes e confiantes em si mesmo. Eu terei falhado se não conseguir que sejam resilientes. Eu volto a repetir: eu quero deixar um legado de bem estar. Isso não tem preço. E nada que substitua o equilíbrio emocional.



Diante dos nossos olhos, olhando aquele ser que vai desabrochando a cada dia, é praticamente impossível que não façamos projeções, que criemos expectativas ou mesmo metas para nossos filhos. Mas se você observar o tanto que uma criança se esforça em ser elogiada pelos pais a cada desenho, pulo ou cambalhota que dão, você pode deduzir o quanto querem nos agradar. O quanto é importante perceberem algum sinal de nossa aprovação. Agora, comece a ir projetando para vida deles – o quanto se esforçarão nas mais diversas áreas para nos agradarem se isso for exigido deles. Isso me assusta. Não, eu não quero filhos que me agradem. Eu quero filhos que saibam fazer escolhas e sejam bem sucedidos com elas. Não sou eu quem tem que gostar da roupa, digo para Alice enquanto está no provador de roupa. É ela quem vai usar. Quem tem que gostar é ela. Tão somente ela.
Se você é da minha idade e morou no interior, talvez tenha conhecido algum menino que não cortava o cabelo até cerca de sete anos. Eu conheci alguns rapazinhos assim. Geralmente, a avó ou a mãe tinham feito alguma promessa – e o fardo caia sobre a cabeça da coitada da criança, que agradecia a graça alcançada do outro ficando anos a fio sem ter as madeixas aparadas, o que para um menino era um tormento. Algo totalmente sem lógica nos dias atuais, mas acontecia. A vó pedia para ser curada e, em troca, prometia que o neto não iria cortar cabelo por 7 anos. Interessante assim. Mas quantas coisas não acabamos fazendo com a ‘‘cabeça’’ do outro?



Não precisa ser médico, psicólogo ou pesquisador para saber que algo não vai bem em nossa sociedade e com nossos filhos. Aquilo que teimamos fazer cada vez mais para produzir bons cidadãos e pessoas vitoriosas simplesmente parece não estar funcionando. Ou quem sabe nossa atuação cada vez mais marcante está piorando? Como explicar tantas crianças desajustadas, em psicólogos, deprimidas, com déficit de atenção ou os inúmeros problemas que temos hoje? E o suicídio em tenra idade? Em toda minha vida até o fim da faculdade, fiquei sabendo de três pessoas suicidaram. Com grandes motivos, não que se justificasse, mas seria algo que poderia dizer que compreendemos. Atualmente, não passa uma semana sequer sem que eu escute de alguém que tenha dado fim à vida e, na maioria das vezes, por motivos não óbvios para nós que ficamos. Definitivamente, estamos fazendo algo coletivamente que não está certo ou que não está funcionando.



Posso estar errada, mas acho que meus pais não ficavam preocupados com as infinitas questões que hoje temos que cuidar – eles sequer olhavam meu dever de casa. E não porque eram ausentes, mas porque os pais simplesmente não faziam dever com os filhos. Eles não brincavam com a gente – para isso, eu tinha amigos e mais amigos. Acho que eles não tinham essa preocupação crescente de produzir filhos cada vez mais ‘‘preparados’’ para vida. Tenho a impressão que era mais uma questão de ter filhos bem alimentados, que iam à escola e se comportassem bem com estranhos. Educar não era muito mais do que isso. Em minha casa, somava-se a religião, um valor que era forte. E só, pelo que me lembro.



Eu também posso estar sendo simplista, mas parece que, considerando as taxas cada vez mais altas do uso de antidepressivos, ansiolíticos e desajustes sociais, que quanto mais temos intervido na criação dos nossos filhos, mais pessoas deprimidas, estressadas e incapazes de lidar com as pressões naturais à nossa existência estamos produzindo. Ou seja, estamos nos esforçando cada vez mais e perdendo também cada vez mais a batalha. Onde estamos errando? Por que o tiro parece estar saindo cada vez mais pela culatra?



Provavelmente, nosso erro não está em um lugar só, mas em várias facetas da vida moderna. Mas vou começar por um ponto – a liberdade. Parece muito óbvio e natural que deixamos o outro fazer suas escolhas e viver suas experiências de crescimento, mas isso não é exatamente assim quando falamos de relação pai e filho, porque estão impregnados em nós vários sentimentos, especialmente três: o amor que quer o melhor, os sonhos que temos e as frustações que sofremos. E esses sentimentos interferem direta ou indiretamente na liberdade que damos para o outro.



O amor.



Por algum motivo, nós sempre achamos que a nossa opinião é o melhor para a outra pessoa. Já percebeu como temos soluções fáceis para qualquer problema alheio? Eu costumo dizer que problema bom é problema dos outros. Com uma frase resolvemos o que a pessoa está há anos tentando solucionar. Quer dizer, achamos que é só fazer como nossa sugestão orienta e tudo entrará nos eixos. Temos sempre uma clareza em decifrar a vida do outro e encontrar soluções. Com os filhos, por termos mais idade e maturidade, é preciso termos o cuidado para não atropelarmos melhores ideias ou desejos diferentes em nome do amor protetor que sentimos. Do amor que quer realmente o melhor. Mas será que sempre o que queremos é o melhor? Temos bola de cristal? Muitas vezes um dos meus filhos vem tirar uma dúvida de alguma decisão. Costumo perguntar: o que você acha que é o melhor? Ouço as respostas. É incrível como todos nós gostamos de verbalizar a nossa opinião, incluindo eles. Como gostamos de dar nossos argumentos e sermos ouvidos. E como quase sempre podemos encontrar a melhor resposta dentro de nós mesmos. Depois de algumas ponderações e duas ou três perguntas que faço, eles geralmente tendem a chegar às próprias conclusões. Vou dar o exemplo de um diálogo recente:


– Mãe, você acha que eu devo ir à festa da Carol?


– O que você acha?


– Eu queria muito ir, mas tenho que estudar para prova amanhã.


– Você acha melhor ir ou não ir?


– Se eu estudar um pouco agora e acordar amanhã bem cedo para estudar, eu posso ir.


– Então, o que você acha melhor fazer?


– Acho melhor eu não ir. Não quero ter que ficar na obrigação de acordar cedo. Prefiro estudar um pouco agora e terminar amanhã depois que eu tiver dormido bem.


– Ok.


Pronto. É isso. Eduque com mais perguntas e menos afirmações. Embora amemos demais, aprenda a ver a capacidade e o interesse de seu filho em suas questões pessoais. Lembre-se que seu filho passa muito mais tempo longe de você do que ao seu lado, portanto, o hábito de decidir deve ser estimulado cedo pois quase sempre ele contará apenas com o próprio julgamento. Separe o amar do decidir pelo outro. Você pode amar muito e simplesmente não saber o que é melhor o tempo todo para ele.



Sonhos.



Além do amor, evite projetar seus sonhos para seu filho realizar. Não tenha sonho de ter um filho médico, juiz, empresário, jogador de futebol ou com três filhos que serão seus netos prediletos. Ou um filho com liderança correndo nas veias, que move todos os coleguinhas ao redor. Se demos conta ou não de realizarmos por nós os nossos desejos é uma questão exclusiva nossa. É um fardo muito pesado e injusto demais quando lançamos nos ombros dos filhos a missão de nos satisfazer em algum ponto ou dar continuidade àquilo que não alcançamos. Exceto o caráter, que é imprescindível, de resto, projete apenas um filho feliz e realizado. Um legado de bem estar. Como um bem sucedido profissional, como um pacato cidadão ou com uma viola embaixo do braço, cuidando sempre também, que viva de acordo com as próprias posses e decisões. Sim, ele pode ser feliz com a viola, desde que se contente em usar chinelo e viver numa módica casinha. Mas qual o problema se ele não é ambicioso? Não há nada de errado na simplicidade. Eu atendi uma vez uma pessoa que estava fazendo curso superior de direito porque queria que a filha, com então cinco anos de idade, fosse uma promotora de justiça. Ela me disse que queria entender exatamente o que a filha precisava fazer para orientá-la como se tornar promotora, por isso, decidiu estudar o mesmo curso primeiro e prestar concurso depois para ajudá-la abrindo o caminho. Já pensou o fardo dessa menina nascida não para ser filha, mas para ser uma promotora de justiça? Aposto que você, como eu, achou uma loucura, mas se pararmos para pensar, temos muitas outras projeções para eles. Lembre-se: eles só têm essa vida para viver. A sua vida, é a sua. A do outro, do outro. Se jogarmos nos ombros deles nossos fardos do passado, os fardos das realizações vindouras e ainda as pressões do hoje, fica pesado demais para eles. Para qualquer um.



Frustrações.



Por último, quem não traz consigo algo que não viveu e gostaria muito que tivesse acontecido? Eu gostaria de ter dançado balé e, claro, coloquei minha primeira filha por um ano nessa aula, até que, na primeira apresentação pude constatar claramente a falta de aptidão. Na porta do teatro, perguntei se ela gostava de balé. Aos quatro anos, ela expressou claramente como detestava as aulas, o que não tinha verbalizado até eu perguntar. Saímos dali de comum acordo que teria sido a última vez que ela colocava um tutu rosa. Ela escolheu a natação e eu não imaginava quanta alegria ela me daria na arquibancada vendo-a ganhar medalhas de primeiro lugar em seu esporte favorito. Sabe, é isso: assistir a derrota do seu filho na poltrona confortável do teatro num ar climatizado de uma belíssima apresentação não pode tomar o lugar dos seus gritos de alegria pela medalha conquistada debaixo do sol escaldante da arquibancada dura. Fomos muito mais felizes naquilo que ela é boa do que no meu imaginário balé para o qual ela não tem nenhum talento.



Abra mão de seus sonhos e pegue os deles. Ou simplesmente deixe que eles cuidem de realizá-los por si mesmo aquilo que almejam. Ao fim, não faz a menor diferença quando você vê um filho feliz e realizado. No teatro ou na natação. Na poltrona ou na arquibancada. Quem decide ser feliz ou amargo somos nós mesmos. Quem decide abrir o presente que Deus nos deu e aproveitá-lo ou ficar olhando para a frente procurando o que ainda não temos, somos nós mesmos. A escolha é nossa, o tempo todo.



ATIVIDADE: nessa semana, pegue um pedaço de papel e o divida em três colunas. Na primeira, escreva quais são os sonhos que você tem projetado para seu filho. Na segunda, quais são as suas frustrações na vida. Na terceira coluna, escreva quais são os sonhos de seus filhos. Se forem pequenos, serão muito poucos ou muito inconsistentes, como ser astronauta. Veja que bom… eles ainda querem pouca coisa além de serem felizes. Não atrapalhe. Risque os seus sonhos e suas frustrações. Escreva por cima deles: isso é problema meu. E liberte seus filhos de seguir sua jornada ou de completá-la de alguma forma. Se você tem algo que não fez, faça você mesmo, com sua força e tempo. Não jogue o fardo neles, mesmo que você chame a missão de oportunidade. É apenas um árdua e pesada missão.

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