Limite o problema ao tamanho que ele tem

09

Oct 2018

Por:Dra. Dayse D'Ávila
Pais e filhos

As crianças são tão flexíveis e descomplicadas e nos ensinam tanto! Que tal se inspirar nelas e se munir desta energia fresca ao resolver os problemas dos seus baixinhos?




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Eu gosto de cachorro quente e andei fazendo uma época um molho bem
rico com milho verde, azeitona, cebola e cheiro verde. Ficava uma
delícia, até que perceber que tem gente que não gosta de milho verde. Ou que
não come azeitona. E alguns detestam cebolinha. Enfim, desde então, tenho
cumbuquinhas para colocar à parte cada um desses ingredientes e quem quiser
monta o seu cachorro quente segundo o seu próprio gosto. Para enfrentar um
problema, um fracasso, um mal comportamento ou uma nota ruim com seu
filho, lembre-se de um cachorro quente. Tente ter em mente que
absolutamente nenhum problema é permanente, difuso, pessoal, repetitivo ou
pelo que você fez de bom. E que, ainda, que podemos extrair algo positivo de
bom em qualquer situação.



Seu problema não é permanente.


O que você está passando com seu filho, seja o que for, pode ser superado,
contornado e resolvido. Tenha clareza disso e passe esse sentimento para ele.
Seu problema não será permanente. Se o cachorro quente não ficou bom, você
não terá que comê-lo todos os dias ou do mesmo jeito. O cardápio vai variar e a
forma de fazê-lo também. Tem coisas que demoram mais a passar, outras
resolvemos com mais facilidade, mas nada de fato é permanente. Seu filho não
faz xixi na cama o resto da vida, não terá prova de matemática para sempre e
nem os mesmos coleguinhas. Tudo passa. E para ajudar a passar mais rápido, eu
sempre puxo para mim a solução ou o problema em si. Sempre me pergunto se
eu posso estar contribuindo para aquele problema e como eu posso fazer para
melhorá-lo. As crianças são muito porosas e permeáveis ao meio em que vivem.


Eu acho que raramente uma criança tem problema. Na verdade, na maioria das
vezes, elas estão absorvendo do meio algo que não está errado e isso altera o
comportamento delas. Se você puder refletir e mudar o ambiente,
provavelmente acelerará a resolução de algo que nunca é definitivo. Quando
minha filha do meio ficava muito chorosa, a gente logo percebia: era eu que
estava trabalhando muito fora de casa. E tinha mesmo que reajustar a agenda.
Em poucos dias, ela se tornava novamente mais tranquila.



Não torne o problema difuso.


Quando temos um problema na vida, nossa tendência é tornamos o problema difuso. Se você está ruim financeiramente, então se acha um péssimo
pai, um filho fracassado ou um amante de segunda. O milho verde não tem
nada a ver com o molho, que não tem nada a ver com o pão, que por sua vez,
não tem nada a ver com a azeitona. São coisas separadas que insistimos em
levar juntas como o meu molho. Se o milho estiver ruim, ele não tem nada a ver
com o sabor da salsicha. Se seu filho tirou uma nota péssima, ele está somente
com um problema escolar, mas ele continua sendo ótimo em outras áreas.


Delimite o problema a onde ele está e continue vendo a capacidade dele nos
outros setores. Não faça seu filho sentir-se difusamente ruim só porque
fracassou na escola ou porque está passivo demais – porque isso não é verdade.
Nossa vida não é como um copo de água em que, se jogarmos uma gota de
anilina, toda a água fica manchada. Nossa vida é setorizada, é feita de gavetas.
Se ele está agressivo com os colegas, ok, vamos delimitar o problema a isso.
Buscar as razões e como resolver isso e não achar que seu filho é mal educado,
indisciplinado, um sociopata em potencial… da mesma forma, não se julgue
uma péssima mãe porque não está sabendo contornar uma determinada
situação. Você não falhou em tudo. É naquele ponto, somente naquele ponto
que as coisas não estão assim tão bem. Costumo chamar a atenção reforçando
as qualidades. “Eu sei que você tem um humor apurado e inteligente, mas a
professora reclamou que está rindo demais durante a aula. Portanto, acho que
você está fazendo um péssimo uso de um dom que você tem, o que acha?” Caso
verídico da semana. Ouvindo o Bernardo falar uma palavra “feia” e que não
temos hábito de usar aqui em casa, pedi a ele que fosse até meu banheiro e
trouxesse meu espelho de mão. Quando chegou para me entregá-lo, pedi que
ele olhasse a sua boca no espelho. Perguntei se ele a achava bonita, o que ele
prontamente respondeu que sim. Comecei falando: “Bê, sua boca não é mesmo
linda? Olha que cor rosinha… e como é larga, imponente para um homem…
seus lábios são muito bonitos, não são? E veja seus dentes… como são
branquinhos!” Ele ficou com aquele olhar para seu reflexo como quem gosta
muito do que vê e disse um lento “sim, minha boca é muito bonita mesmo!”


Então, eu dei a cartada final: “e você acha justo com Deus usar uma boca assim
tão linda que Ele te deu para falar uma palavra assim tão feia?” Ele arregalou os
olhos e ficou olhando assustado um certo tempo ainda no espelho. Disse um
não e foi guardar o espelho chateado consigo mesmo. O chamei de volta e dei
um beijo gostoso. Falei o quanto eu o amava, o quanto ele era bom filho e o
quanto era bom ser sua mãe. E sabia que ele não iria mais usar aquela palavra
que ouviu de um coleguinha na escola.



Não é pessoal.


Muitas vezes sentimos que o raio caiu justamente na nossa cabeça. Que
fomos escolhidos. Não, não somos os únicos. Não é só seu filho que é
indisciplinado ou ruim em matemática. São muitas crianças no mundo. Você
dificilmente será o único da espécie humana passando por um determinado
problema. Para consolo, basta digitar na internet e encontrará uma tribo
discutindo a mesma realidade que a sua. Acontece. E acontece o tempo todo.
Você não foi premiada, não é a primeira e nem a última. Não é só você que faz
um cachorro quente errado ou é obrigado a comer um com azeitona de vez em
quando. Você não foi a escolhida para ter um filho com determinado problema.
As coisas simplesmente acontecem e para todo mundo. Nas melhores famílias.
Mas apenas aqueles que querem alcançar sabedoria são capazes de resolver
rapidamente e de forma madura, extraindo o melhor daquilo. Não se vitimize.
Não diga o “eu mereço”. Você não merece, ninguém merece. Nós crescemos
com tudo que chega até nós. Todas as coisas cooperam para o nosso
crescimento, tanto as boas quanto as ruins. Mas são as ruins que realmente nos
fazem nos superar e crescer de verdade. E, pela maturidade que tenho, posso
concluir: a maioria das coisas ruins foram plantadas por nós mesmos.



Não é repetitivo.


Não é porque seu filho deu uma má resposta, que todos os filhos são
ingratos. Não é porque você se decepcionou com uma questão, que ela sempre
se repetirá, afinal, os filhos são assim. Acontece. Mas não é sempre assim. Não é
porque alguém misturou tudo, incluindo milho e cheiro verde, que todos os
cachorros quentes do planeta são ruins. Não generalize achando que sempre
você vai padecer de uma mesma questão. Não generalize que todos os
casamentos dão errados ou que todos os adolescentes são insuportáveis.
Escolha ter uma história diferente. É importante delimitar o problema ao que
ele representa de fato, ao tamanho que tem e ao que exatamente afeta. Não é
porque seu filho tirou uma nota ruim que ele é incapaz na escola. Ou que será
ruim. Meu irmão tomou três bombas escolares e hoje é um mestre e professor
em escola de Medicina. Não generalize. Tenha realmente esperança porque a
vida é cheia de reviravoltas positivas. Somos gavetas compartimentadas. Uma
gota de anilina não manchará todas as nossas virtudes.



Não é pelo que você fez de bom.


Esse é um dos nossos grandes erros. Seu filho perdeu nota não é porque
você o deu muito presente ou tem se preocupado demais com ele. O
casamento dá errado não é porque você amou demais ou se dedicou mais que
deveria. As coisas dão errado pelas coisas erradas que fizemos ou pelas boas
que deixamos de fazer, não pelo bem que liberamos. Não se arrependa de nada
de bom que tenha feito ou vivido. Vasculhe onde está de fato o erro. Ele nunca
está no bem, está no que foi errado, no que foi mal feito, no que deixou de ser
feito, consciente ou inconscientemente. Nossa tendência natural é nos
agarrarmos com rancor à ingratidão que sentimos ou à falta de reconhecimento
por um gesto bom e acharmos que o problema está no amor, no que foi bom.
Libere mais ainda do que você tem de melhor. Abra mais seu coração para
fidelidade, sinceridade, transparência, amor, perdão, resiliência, dedicação e
todas as virtudes que puder se lembrar. O universo trata de nos devolver de
alguma forma. As coisas boas nunca irão nos prejudicar porque o bem é
essencialmente e naturalmente gracioso, recompensador, bom e justo. O que
nos afeta é o rancor, o ressentimento, a falta de perdão, a ingratidão, a
intolerância, a impaciência, a imprudência, a negligência, o desconhecimento,
a ignorância… é sempre o lado mau.



Pense na semente.


Creio piamente que toda adversidade traz consigo a semente de um
benefício igual ou maior, como afirma Napoleon Hill. Nada, absolutamente
nada, é de tudo ruim, porque não importa o que acontece conosco, mas como
nós reagimos a isso. Nós não crescemos muito com a bonança. São as
dificuldades que nos impulsionam. Os desafios é que nos levam a alcançarmos
mais de nós e a busca por solução é que faz a humanidade tão diferente dos
animais. Minha filha mais velha teve uma grande dificuldade em matemática
com cerca de 8 anos. Grande mesmo. Tentamos Kumon, tentamos professora
particular, tentamos várias coisas. E nada dava certo. O desempenho dela
simplesmente não subia. Eu sempre fui ótima em matemática, e tentava
explicar, desenhava… e nada. Eu tinha vontade de avançar no pescoço dela.


Estava vivendo uma época difícil e precisava trabalhar muito pois acabara de
construir uma Clínica nova. A última coisa que eu precisava era de uma nota
baixa tirando meu sossego. Eu orava para Deus me aliviar desse fardo, mas
minha filha só piorava na escola. Ele parecia não me ouvir. Nasceu até um
ressentimento com o Criador. A coisa de fato iria terminar muito mal se eu não
fizesse algo. Então, sei lá como, resolvi voltar dois anos escolares com ela em
casa. Peguei os cadernos dos anos anteriores, livros antigos e comecei a estudar
sobre educação e o ensino da matemática. Imprimi o currículo australiano e
comecei a seguir Blogs estrangeiros de homeschooling. Comecei a crescer
nesse assunto e entender como uma criança aprende a matemática. Passei a
montar um grande material escolar usando meus adormecidos talentos para
trabalhos manuais. Resolvi ensinar o Bernardo e a Ana também, que tinham 4
anos e 5 anos para evitar que o problema reincidisse em minha casa. Precisei
comprar uma estante só para guardar material didático. Em quatro meses, Alice
deu um salto, Aninha também e consegui alfabetizar o caçula em casa,
simultaneamente em letra minúscula, maiúscula e cursiva. Trabalhando o dia
todo fora de casa. Pedagogicamente, ele avançou dois anos escolares em
quatro meses de intervenção minha. Criei uma grande proximidade com meus
filhos, porque na época, eu trabalhava quatorze horas por dia fora de casa. A
redução de duas horas diárias fez grande diferença em minha família, enquanto
Deus tratou de prover o dinheiro lá no Consultório pelo período em que eu
precisava auxiliar a Alice. Ajudei muitas mães com essa mesma dificuldade.


Depois disso, consegui vir num processo de otimizar meu tempo para manter
meu faturamento trabalhando muito menos, mas de forma mais produtiva. E
não passo de oito horas diárias, um dia sequer. Esse livro é resultado, em última
análise, de uma grande dificuldade em matemática. Moral da história: toda
adversidade traz consigo uma semente de um benefício igual ou maior. Nada é
somente ruim se você buscar sabedoria para resolver e de fato se empenhar
com o coração aberto para a melhor solução, mesmo que ela não seja a que
você pensou inicialmente. O fato é que escolhemos como encarar tudo em
nossa vida: como uma derrota ou como o início de uma fase melhor. É o fim ou o
começo? Eu prefiro acreditar que sempre há um início de um novo ciclo.



ATIVIDADE: sempre que tiver um problema, dê logo um jeito de delimitá-lo ao
máximo ao lugar que ele deve ocupar. Não o considere permanente e sem
solução, não o estenda para todas as áreas da sua vida, não o tome como
pessoal, não pense que ele irá se repetir indefinidamente e nem se arrependa
de todo bem ou amor que você liberou. Pense na semente e o que pode advir de
bom daquela situação.

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